Mania de perseguição e fuga de responsabilidades
Postado em 8 fevereiro, 2008
Sob a(s) categoria(s): Política |
Um dos assuntos mais comentados estes últimos dias em Fortaleza foi a queda das arquibancadas no carnaval de rua da Domingos Olímpio, que vitimou cerca de 40 pessoas (sem contabilizar as que não deram entrada no IJF). Aparentemente, não suportaram o peso dos que estavam ali assistindo os desfiles dos blocos de maracatu e cederam.
Imediatamente após o fato, a primeira declaração da prefeitura foi de que o “acidente” se tratava obviamente de “sabotagem” promovida por seus adversários políticos. Simples assim: a causa dos problemas é sempre culpa dos outros e não da incompetência em conduzir uma licitação. Me poupe!
Estive na Domingos Olímpio no dia do acidente para registrar o maracatu em fotos (ainda não sei se as posto no Flickr, pois vê-las me traz imediatamente a lembrança de um incidente trágico e sempre mantenho certa reverência em relação a acontecimentos tristes) e vi a estrutura das arquibancadas. Cheguei a subir nelas por alguns minutos mas bastou olhar atentamente para saber que ali não era o melhor lugar para se ficar. Tirei a foto abaixo naquele mesmo dia (clique pra ver maior), entre 30 minutos ou 1 hora antes do acidente. Isso mesmo, saí de lá pouquíssimos minutos antes. O suficiente para ver passar por mim, em sentido contrário, as ambulâncias do SAMU quando me dirigia a um café na Vigílio Távora.
Isso que vocês vêem na foto são, sim, barras enferrujadas, madeiras murchas, pregos aparentes e amarração com arame. Não é preciso ser engenheiro ou especialista pra saber que não tinham a menor condição de segurança. Sabotagem política só se o sabotador tiver sido a pessoa que aprovou a empresa vencedora da licitação para a montagem das arquibancadas. Para mim, isso nada mais é que incompetência, descaso e omissão. A prefeitura devia agradecer o fato de não ter havido vítimas fatais. E, claro, cumprir com suas obrigações de assumir sua parcela de culpa e assistir as vítimas, em vez de se apegar a teorias conspiratórias.
Conversando com Lucy em um café, um tema veio à pauta: se as vítimas fossem pessoas de classe média alta ou turistas, o que seria diferente no comportamento da prefeitura em relação ao acontecido? Insistiria na tese da sabotagem? Continuaria sem visitar e assistir as vítimas?
O vizinho Norton escreveu um extenso - e, até certo ponto, muito passional - post sobre o tema. Luiz carlos de Carvalho postou no Sobretudo uma nota no O Povo que antecipava a tragédia. Emanuela França, no Segundo Clichê, relata sobre o drama de uma das vítimas e apresenta algumas outras histórias e informações.
Complementando: a prefeita, que tanto insistia na necessidade de valorização do carnaval de rua em Fortaleza, estava no Rio de Janeiro no dia do acidente.
Tags: arquibancadas, carnaval, domingos olímpio, fortaleza, licitação, luizianne lins, maracatu, prefeituraPosts relacionados
Comentários
8 Responses to “Mania de perseguição e fuga de responsabilidades”
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ok gabriel ramalho,
rapaz, tenho várias maneiras de responder a comentários como o seu…
mas vamos, por enquanto, respeitar a boca do baralho,
seria interessante que vc definisse de imediato o que chama de “muito passional” — a narrativa personalista, igual a sua, ou a analítica na apuração e exposição das informações?
não entendo o que vc chama de passional…
ficou alguma dúvida sem resposta? não ficaram claros os pontos cegos do acidente? as questões colocadas não são as pertinentes? me diga, seja claro, do contrário a sua laconica interpretação deixará claro que a sua opinião carece tanto de fundamentos como a arquibancada careceu de calçada…
recorde-se, vc poderia ser uma das vítimas — se fosse uma das vítimas talvez não estaria tão passivo na sua abordagem e estaria mais indignado, ou mais passional…
[...] lê o post do indignado e assustado Gabriel aqui. Mas a foto, que ele fez e também publicou lá, eu antecipo [...]
Norton, pode me chamar apenas de Gabriel mesmo.
Tem uma coisa desagradável quando de textos escritos que é a interpretação que é feita por quem lê e que às vezes não condiz com a de quem escreveu. Nestas interpretações, pequenas coisas podem virar grandiosos problemas apenas por conta destas subjetividades. Vamos esclarecer, então, que é mais negócio pra gente.
Ao me referir a seu post, em nenhum momento, quis usar o termo “muito passional” de forma pejorativa. Sobre seu pedido para que eu melhor defina, referia-me à narrativa personalista, referia-me também a alguns trechos onde algumas frases dão bem a entender (ao menos para mim, como leitor) sua opinião sobre a prefeita e sua administração (algumas vezes salientando mais a personagem que as conseqüências de seus atos - como em “Os parafusos soltos caíram da cabeça da prefeita” ou “Luizianne vai sair da prefeitura pela porta dos fundos, de preferência de noite, disfarçada de morena, com peruca e tudo”). Isso para mim é uma opinião pessoal e, por que não?, passional.
Espero ter deixado claro, definido e fundamentado bem agora. Mais uma vez reitero que não usei o termo referente à passionalidade com qualquer pecha pejorativa. Aproveito e até assumo meu texto também como tal, enxergando nele quantidades suficientes de indignação com o acontecido e acredito, passando longe da tal passividade a que você se referiu.
Acredito que você não deva ter lido meu post com a devida atenção. Como também acredito, ao citar novamente a tal da interpretação do que fazemos do que está escrito por outrém, e prefiro acreditar nisso também, que foi apenas impressão minha que as frases “tenho várias maneiras de responder a comentários como o seu… mas vamos, por enquanto, respeitar a boca do baralho” ou, então, “deixará claro que a sua opinião carece tanto de fundamentos como a arquibancada careceu de calçada” carreguem um tom ameaçador, de desdém ou descordialidade.
Espero ter explicado suficientemente bem.
Sobre o “se fosse uma das vítimas”, prefiro me abster de comentar porque meu post fala por mim. Esta desculpa, para mim, é ladainha antiga, até porque sempre escuto isso quando alguém descobre que sou defensor dos direitos humanos. Geralmente, nestes casos específicos, quem diz isso não conhece nada de minha história e não sabe que já passei por situações-limite e que fui vítima mais de uma vez de situação de violência e, ainda assim, permaneço fiel na defesa disso. Portanto, para mim, como você não me conhece, isso não passa de uma especulação que prefiro deixar passar.
Cordiais saudações, vizinho.
tenho muitos amigos chamados gabriel,
inclusive o principal deles, a Força,
então, permita-me chamá-lo como chamo os gabriéis amigos,
gab,
primeiro, gosto muito do título do seu blog — referencia a cena lynch-meteórica, que sempre revejo, assim como muitas outras deste proto-buñuel norte-americano, david lynch
já escrevi aqui que sou como o NYT, digo logo se tô de um lado ou de outro — sem teretetê — como explica o manuel de redação do vigoroso el pais, objetividade é um mito porque subjetivos somos…
deixo isso bem claro, porque não escrevo senão para esclarecer, não para cair em mais dúvidas, em ponderação inútil ou cascavilhar de desculpas, transferencias, projeções…
mas isso não é passionalidade gab,
passionalidade seria se estivesse a ver as coisas sob a minha exclusiva visão, como numa paixão egóica, onde só eu vejo o que digo, sem compartilhar o que os outros também estão a ver…
sua afirmação de que fui “muito passional” significa que vi as coisas sob a minha ótica, quando todos viram o circo pegar fogo… por isso a replico e a treplico,
a palavra passional tem vínculo com paixão e paixão não serve para derreter a cena, as paixões não amolecem as coisas, pelo contrário, as endurece e assim as chumba e as emburrece,
por isso, sugeri em forma irônica que vc poderia estar apoiado em um argumento falso, que desequilibraria a linha do seu discurso no decorrer do debate… não foi desdenhoso ou descortês, se bem que não faço corte pra ninguém — aos cegos do castelo me despeço e vou…
pelo que percebo, acertei porque é comum mesmo na sociedade ocidental confundir passionalidade com subjetividade e, o que é pior, achar sinômino entre subjetividade e opinião pessoal — até mesmo porque subjetividade é também dado a considerar, senão estaríamos ainda pensando pelas palavras que nos foram fornecidas, como os nossos antepassados…
não é passionalidade a afirmação que os parafusos estão frouxos na cabeça da lora, alguma dúvida? é uma imagem concreta, construída por uma subjetividade, mas não é uma imagem passional — é possível ver isso na sua imagem sambando como se nada tivesse acontecido na mesma avenida onde aconteceu o acidente… por exemplo, você faria hoje uma batucada na porta agencia do banco onde morreram 6 pessoas em aracoiaba? óbvio que não, porque vc tem juízo, prefere tomar um café a desfilar insensatez…
o disfarce de morena é pra valer — sei o que acontece com as pessoas que abandonam o poder, são imediatamente destratadas por aqueles que a tratavam no curto período do poder tanto e tão bem, com sorrisos sem coração,
é uma opinião claro, é subjetiva claro, mas não é informação passional, aliás, sequer torço por isso, pois se por isso torcesse, ficava calado como fazem os bajuladores…
claro que a arquibancada não foi armada para cair, mas tb não vou cair na conversa da prefeita y asseclas de que foi sabotagem…
luizianne conheço desde os tempos da ufc, inclusive, fui um dos primeiros a sugerir que ela disputasse a cadeira de vereadora com um slogan que sugeriu risos e rubor, NA CAMARA COM LUIZIANNE…
depois ajudei na sua eleição de deputada estadual e na sua eleição para a prefeitura,
fui o primeiro na imprensa cearense a considerar como objetivas e reais as suas chances de eleição, isso no meio do ano de 2004, logo depois de analisar subjetivamente as primeiras pesquisas eleitorais — inclusive, forneci para ela o primeiro paper consistente sobre o que era administrar fortaleza, além do argumento que gerou a sua primeira frase eleitoral, frase imediatamente pronunciada depois que da vitória impossível da convenção do PT — só não repito a frase porque é uma das senhas para abrir votos na proxima eleição.
considero luizianne um dos grandes desperdícios políticos,
lamentável, que ela não tenha caído no conservadorismo de não compreender o papel fundamental dos críticos e tenha prefira, como outros que chegaram ao poder, os bajuladores, os alugadores de caneta, que parecem bons moços por fora, mas por dentro estão podres da carniça do poder…
Opa, envolvida no post, eu!
Bom, enfim, assim como o norton, acredito piamente que essas ‘instalações’ da arquibancada não foram feitas de propósito, pra que o pessoal caísse. eu, pelo menos, não quero acreditar nunca que isso seja possível. mas é um absurdo inquestionável a falta de habilidade, pra não dizer amadorismo, com que essa situação foi conduzida. desde o momento da construção das arquibancadas, em ‘tempo recorde’ - e, cá pra nós, pra quê quebrar recordes? pra quê colocar a saude da população em jogo, só pra mostrar ‘agilidade’ na instalação das estruturas?
a pressa em mostrar laudos comprobatórios foi completamente eclipsada pela declaração desastrosa de que se tratava de um ‘complô político’. e as vitimas disso, sabe? não foram respeitadas diante de uma declaração dessas. até que ponto os jogos politicos, o ‘aparecer bem na mídia’ - ou seja lá que nome isso tenha - vai se sobrepor ao bem estar da população que elegeu esses poiticos?
eu não acompanho de perto o caso, enfim. mas me parece só mais um entre diversos episodios que já assistimos de inabilidade dos politicos em conduzir essas situações e na capacidade de desrespeitar os direitos humanos - amplamente lembrados em periodos de campanha.
e me perdoe pelos eventuais erros.
sono.
um beijo!
Você questiionou o que aconteceria se o público fosse de classe média alta, ou até turistas, não é mesmo, Gabriel. Pois eu tenho outro questionamento a fazer: Por que o acidente ocorrido no Verão Vida e Arte, vitimando 30 pessoas que estavam indo curtir os shows, mal foi veiculado na imprensa?!! E olhe que o público predominante não era de povão, não…Eram patricinhas, mauricinhos e muitos turistas…Será que foi porque o evento era promovido por um veículo de comunicação?! O jornal O Povo não uma linha sobre o caso. E as vítimas acidentadas no Castelão sairam com ferimentos mais graves do que as vítimas da arqubancada da Domingos Olímpio! é a imparcialidade dos nossos veículos de comunicação!!!!
Anônimo, geralmente não aprovo comentários anônimos neste blog, mas o seu vou manter apenas porque acho uma colocação válida.
Norton, fico feliz em ter percebido que tudo, das duas partes, não passou de erro de interpretação. Apareça sempre por este pedaço de Mulholland Drive.
Lucy, pois é.
Só pra fazer volume.