Veja e o defunto de Che Guevara

Postado em 19 novembro, 2007
Sob a(s) categoria(s): Mídia |

Em 03 de outubro, postei o seguinte no antigo Silenzio:

Che desconstruído

A Veja desta semana dedica matéria de várias páginas para desconstruir o mito Che Guevara no aniversário de 40 anos de sua morte. Guerrilheiro sanguinário, autoritário, sem-coração, defensor do totalitarismo e do cerceamento de liberdades individuais são os termos. No texto, que pode ser lido também no blog do Mário Aragão, não faltam ironias ao ícone revolucionário, responsável junto com Fidel pela Revolução em Cuba, país sempre retratado de forma negativa pela Revista que ataca, principalmente, o regime ditatorial atual e sua supressão dos direitos individuais.

Cabe aqui uma pergunta: Fosse Cuba um país anti-democrático, sem direitos individuais e com histórico de totalitarismo e controle dos cidadãos, MAS com um crescimento econômico invejável mesmo que às custas de condições de trabalho quase escravo, como ocorre na China, a Veja continuaria a crítica ou também faria uma edição especial de dezenas de páginas exaltando este crescimento, a exemplo do que houve ano passado? A questão é a ditadura totalitária ou estar fechado ao capitalismo?

Eliminando da discussão o fato de ser meio incompreensível o critério da revista para classificar ditaduras cruéis e sem liberdades individuais e a particular defesa da rica potência chinesa (incluindo aí o fato de nunca ter gasto uma linha para falar da ameaça de boicote da UE aos jogos olímpicos de Pequim, em resposta às atrocidades daquele governo contra os direitos humanos) e a execração da ditadura castrista, o que se sobressai na matéria é o que pode ser chamado de jornalismo ruim: toques editoriais e de opinião em artigo que deveria ser factual, a incapacidade de isenção no texto, demonstrando claramente posicionamento ideológico e o uso de “especialistas” não-creditados como “fontes secretas”, embora tenham se selecionado como fontes apenas aquelas pessoas que concordam com a opinião do articulista, Diogo Schelp.

Jon Lee Anderson, biógrafo e autor do livro Che Gevara, uma biografia, teve acesso à reportagem de Veja e estranhou o conteúdo por um motivo: havia sido procurado por Diogo e até respondeu a ele, mas sua opinião, longe da demonização escrita por Schelp, não foi utilizada em nenhum momento na matéria. Resolveu, então, escrever carta aberta para os jornalistas brasileiros, transcrita abaixo traduzida para o português e postada por Pedro Dória em seu blog:

Caro Diogo,

Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.

Cordialmente,
Jon Lee Anderson.

Reynaldo Azevedo postou em seu blog a resposta de Diogo Schelp, com uma certa arrogância e criticando a tradução de Pedro Dória, mesmo que esta respeite a essência do texto original e falhe em ítens isolados, sem prejuízo para a informação ou manipulação. Jon Lee Anderson escreveu, então, uma tréplica onde, mais uma vez critica o “jornalismo” praticado por veja.

Não é a primeira vez que a imprensa internacional questiona a credibilidade dos veículos brasileiros. Não há de ser a última.

A réplica de Schelp e a tréplica de Anderson você pode ler, respectivamente, aqui e aqui.

Via: Pedro Dória Weblog.

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UPDATE:
PD escreveu excelente análise sobre a linha editorial atual da Veja. Vale ler.

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